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Espécie rara de morcego é reencontrada no Brasil após mais de um século sem registros

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Um morcego da espécie Histiotus alienus foi encontrado por pesquisadores brasileiros em Palmas, após 102 anos sem registros.

A primeira e única documentação da espécie tinha sido feita em 1916, pelo naturalista inglês Michael Rogers Oldfield Thomas, que fez a captura em Joinville, Santa Catarina.

Depois disso, o animal nunca mais tinha sido encontrado por pesquisadores.

O cenário mudou quando o projeto “Mamíferos do Refúgio de Vida Silvestre dos Campos de Palmas e do Parque Nacional dos Campos Gerais” (Promasto) capturou um exemplar da espécie em 2018.

A publicação do registro ocorreu em setembro deste ano na revista científica ZooKeys, após uma série de pesquisas e validações.

O projeto reúne cientistas do Laboratório de Análise e Monitoramento da Mata Atlântica (Lamma) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Antes do registro no Paraná, a espécie estava na lista de “dados insuficientes” da International Union for Conservation of Nature and Natural Resources (IUCN).

Com o reencontro, os pesquisadores puderam fazer uma redescrição da espécie, para que outros cientistas possam identificar o animal com mais facilidade, como explica Liliani Marilia Tiepolo, coordenadora do projeto de pesquisa e professora do curso de Ciências Ambientais da UFPR.

A cientista afirma que a redescoberta traz um sentimento de satisfação. A pesquisadora reforça que a pesquisa é fruto de um trabalho coletivo, interdisciplinar e interinstitucional.

Captura

Acaptura do morcego aconteceu graças a um equipamento chamado de “rede de neblina”, formado por uma rede de malha de náilon instalada em pontos estratégicos do Refúgio de Vida Silvestre dos Campos de Palmas.

Segundo a pesquisa, o morcego encontrado é um macho, considerado pequeno, de cerca de 12 centímetros de comprimento.

O gênero ao qual o morcego encontrado pertence, Histiotus, tem 11 espécies conhecidas de morcegos, entre elas o Histiotus alienus.

Habitat

De acordo com Vinícius Cardoso Cláudio, pesquisador da Fiocruz Mata Atlântica que participou da descoberta, uma das principais características deste gênero são as orelhas em formato de vela.

Os morcegos do gênero Histiotus são encontrados na maior parte da América do Sul, em ambientes como florestas e montanhas.

No caso dos morcegos da espécie encontrada, Histiotus alienus, segundo a publicação, os pelos são avermelhados e compridos no dorso, enquanto as costas são cobertas por pelos escuros. Eles se alimentam de insetos.

Além disso, têm orelhas menores do que as de outros morcegos do gênero. O nome escolhido para batizar a espécie, “alienus”, tem origem no Latim, e significa “estranho”.

Cláudio explica que para confirmar a identidade da espécie foi preciso compará-la com o animal capturado pelo naturalista inglês em 1916 em Joinville. O exemplar fica no Museu de História Natural, em Londres.

Redescrição

A coordenadora do projeto de pesquisa, Liliani Marilia Tiepolo, explica que um dos principais avanços da pesquisa é uma nova redescrição para a espécie. Segundo a cientista, a descrição de 1916 era simples, dificultando a identificação desse tipo de morcego.

“Nós proporcionamos uma nova redescrição, com mais riquezas de detalhes, que vai melhorar a resolução para que outros pesquisadores possam também identificar com mais segurança o Histiotus alienus, caso eles capturem essa espécie em outros locais”, explica.

A expectativa do grupo de pesquisadores é que, com a nova descrição, os registros da espécie aumentem, inclusive em outras localidades.

Risco de extinção

Especialistas em morcegos acreditam que a espécie encontrada corre um grande risco de extinção e reforçam a necessidade de protegê-la.

“A gente tem segurança em afirmar que ele é uma espécie ameaçada de extinção, porque ele possui apenas dois registros com muita distância de tempo entre eles”, afirma Tiepolo.

Segundo a pesquisadora, o morcego vive na região da Mata Atlântica, que têm registrado níveis alarmantes de desmatamento.

Nos primeiros cinco meses de 2023, o Paraná registrou uma área total de 1.024,53 hectares desmatados, de acordo com dados do MapBiomas.

Conforme os pesquisadores, outro risco para a espécie é o fato de os habitats naturais no estado estarem sendo transformado em áreas de cultivo agrícola, pastagens e plantio de pinus e eucalipto.

Outra ameaça à rara espécie de morcego citada pelos pesquisadores é a expansão da energia eólica em Palmas e das hidrelétricas na Bacia do Rio Iguaçu, que atrapalham a sobrevivência dos morcegos.

“Ao mesmo tempo que a gente fica feliz [com o reencontro], a gente fica preocupado. Isso levanta para nós uma série de preocupações com a conservação dessa espécie, porque ela é uma pesquisa de apenas dois registros”, explica.

Ainda assim, a expectativa dos cientistas é que, com a redescoberta, os pesquisadores possam compreender melhor a situação em que a espécie se encontra e que ela possa ser amparada nos espaços onde habita, especialmente nas unidades de conservação.

Fonte:

 

https://g1.globo.com/pr/parana/educacao/noticia/2023/11/25/especie-rara-de-morcego-e-reencontrada-no-brasil-apos-mais-de-um-seculo-sem-registros.ghtml

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